Arquivo da categoria ‘Hugo Chávez’

Chávez e o seu desrespeito às soberanias alheias

É sabido por todos que Hugo Chávez tem um longo rol de intromissões em assuntos internos de outros países. O Presidente venezuelano se intromete em episódios que vão desde eleições presidenciais até pequenas disputas e atritos.

É inegável, mesmo para os defensores do regime chavista, que Chávez influenciou o resultado de diversas contendas, começando pela eleição presidencial boliviana, passando pela luta do governo colombiano contra as FARC e chegando, até mesmo, ao carnaval carioca, onde a escola de samba Vila Isabel foi, recentemente, patrocinada pelo líder venezuelano.

É claro que influir em questões de soberania de outros países não é privilégio de Chávez. Os próprios Estados Unidos, propaladores da liberdade e da democracia, fizeram isso a torto e a direito nos idos da guerra fria. Além disso, vale ressaltar que o carnaval carioca não é uma questão de soberania nacional, porém, serve como bom ilustrativo do nível a que a intromissão chega.

Como se faltassem exemplos da influência, por baixo dos panos, de Chávez, ele continua a fabricar novos. A mais nova informação dá conta de que os Ministros que foram retirados do staff cubano por Raúl Castro teriam tido esse destino pelo fato de estarem mancomunados com Chávez, visando tomarem o poder para proteger Cuba de uma suposta “abertura” que está sendo promovida, aos poucos, por Raúl.

Informa Marcos Guterman que o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, razoavelmente respeitado por sua atividade acadêmica e autor de uma biografia de Che Guevara, surpreendeu ao publicar um artigo na revista Newsweek, no qual afirma que um golpe foi abortado em Cuba. No texto, ele diz que o então vice-premiê cubano, Carlos Lage, e o então chanceler, Felipe Perez Roque, conspiraram para derrubar o presidente Raúl Castro – com a ajuda do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Segundo Castañeda, Lage e Roque, “que procuraram Chávez ou foram procurados por ele” para ajudar no golpe, entendiam que Raúl estava disposto a fazer concessões em demasia, colocando em risco a revolução cubana. Chávez teria procurado apoio de outros líderes latino-americanos para a empreitada, diz Castañeda. A trama foi descoberta, e Lage e Roque, afastados.

O mexicano admite que não tem como provar o que escreveu, dizendo que as informações são “especulações” que chegaram a ele. Mas diz que o silêncio de Chávez após a demissão de Lage e Roque mostra que há algo no ar.

Ok. Admito que as informações podem não passar de boatos, até porque, Castañeda afirma que não pode provar o que diz. Porém, dificilmente me passaria pela cabeça duvidar muito dessa teoria, por força dos diversos precedentes que Chávez tem em sua ficha corrida.

Vale ainda ressaltar que, além de estar promovendo, na surdina, um golpe, igual ao que o atingiu e que é tão criticado por ele até hoje, e estar se intrometendo em assuntos que, claramente, dizem respeito à soberania cubana, Hugo Chávez também tem os propósitos errados. A leve “abertura” proposta por Raúl é uma das poucas medidas que pode ter sucesso no sentido de atrair novos investimentos na ilha e permitir que os Estados Unidos revejam o embargo, o que melhoraria, e muito, a qualidade de vida dos habitantes cubanos, mesmo que Raúl Castro continuasse no poder.

Chávez, ou nem mesmo vê que a “abertura” é estratégica e que, na realidade, não atenta profundamente contra os ideais socialistas pregados por ele e por Fidel, ou na realidade, o que é mais provável, nem se importa com isso, querendo saber mesmo dos seus interesses e não dos do povo cubano.

Se tentar influir na política interna de diversos países ao redor do globo é ser imperialista, adjetivo usado e abusado por Chávez para caracterizar os Estados Unidos, o líder venezuelano também o é. Se os Estados Unidos defenderam em detrimento dos povos de alguns países os seus interesses, e realmente o fizeram algumas vezes, e por isso merecem as críticas de Chávez, não mereceria ele as mesmas críticas pelo que faz com Cuba?

É algo a se pensar. E não me venham dizer que o que Chávez faz é “proteção”.

Oposição venezuelana resiste a Chávez

“Oposição venezuelana promete resistir às ocupações de Chávez”

“Os governadores venezuelanos da oposição rejeitaram nesta segunda-feira, 16, acatar a ordem do presidente Hugo Chávez que estabelece que os militares tomem portos e aeroportos do país, enquanto as autoridades regionais oficialistas saudaram a medida. ‘Não temos medo. Podem ter tanques e navios, mas nós temos a união do povo’, disse Pablo Pérez, governador do Estado de Zulia, no noroeste de país, onde fica Maracaibo, principal porto de exportação de petróleo.”

Tomara que a oposição reaja realmente. Torço para que  se consiga uma resistência bem-sucedida, embora reconheça que a oposição que existe na Venezuela também não seja lá “flor que se cheire”. A realidade é que por mais que a oposição esteja certa em responder de forma negativa aos desmandos de Hugo Chávez, a Venezuela precisa de alternativas éticas, honestas e duradouras.

Por hora, a oposição precisa tentar manter um equilíbrio de forças, não permitindo que os venezuelanos se encontrem cercados por um regime mais autoritário do que já é. Afinal, as “razões estratégicas” dos chavistas estão muito mais explicadas e “descentralização” apenas “centraliza” cada vez mais qualquer tipo de setor nas mãos de Chávez, seus familiares e correligionários.

Como diz o Estadão na reportagem citada acima, a oposição acusa o presidente de tentar asfixiar economicamente governadores e prefeitos contrários a ele. Pois é justamente isso que está acontecendo. E o nome dos regimes que asfixiam a oposição é ditadura.

Cada vez mais os que defendem o regime de Chávez zqui no Brasil não conseguem justificar atos que demonstram claramente um regime autoritário, ditatorial, personalista e cooptador de instituições, comandado por um protótipo de caudilho que seria cômico se não fosse trágico.

Chávez, transportes e o autoritarismo venezuelano

“Chávez assume controle de sistema de transportes”

“A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou nesta quinta-feira (12) uma medida que transfere dos governos estaduais para o governo federal o controle sobre as estradas, portos e aeroportos do país.

A decisão dá ao presidente Hugo Chávez o controle sobre as principais vias de transporte venezuelanas. Segundo críticos, a medida é inconstitucional e vai consolidar ainda mais o poder do presidente sobre os Estados e cidades governados pela oposição.

O governo argumenta ‘razões estratégicas’ para retirar este controle da mão dos governadores e prefeitos.”

Eu poderia já começar a criticar os argumentos do governo Chávez a partir do vago conceito de “razões estratégicas”, utilizado como justificativa para mais um ataque claro à democracia e às instituições venezuelanas, porém, antes, vou mostrar que a coisa fica pior ainda.

“Durante o longo debate na Assembleia, formada, em sua maioria, por correligionários de Chávez, os deputados governistas argumentaram que ao devolver o controle sobre as vias de transporte para o governo federal estariam garantindo maior participação popular nos assuntos públicos.

O líder do Partido Socialista Unido, Mario Isea, disse que eles estavam aprovando as mudanças para ‘defender o direito de acesso’ e ‘garantir serviços públicos essenciais’ para todos os venezuelanos.

‘A descentralização, para a gente, significa a transferência ao poder popular. E o poder nacional é o reitor, o ordenador desse poder popular’ disse o deputado e constitucionalista Carlos Escarrá.”

A manobra retórica seria cômica se não fosse trágica. Quer dizer então que as estradas, portos e aeroportos passaram a ser controlados pelo governo venezuelano para assegurar a participação popular, defender o direito de acesso e garantir os serviços públicos essenciais.

Eu não teria crítica nenhuma quanto a isso. Também acredito que os transportes devam ser democratizados, inclusive aqui no Brasil, com aumento da qualidade e diminuição dos custos, porém, o povo, para o regime venezuelano, não é o povo, é o próprio regime.

Descentralização é transferência para o poder popular e o poder popular é representado pelo regime? Ora por favor! Que dia algum venezuelano poderá opinar sobre a gestão desse setor? Quem será consultado a não ser Hugo Chávez e seus lacaios? Quer dizer que “descentralizar” é colocar na mão do povo na teoria, enquanto na prática “centraliza-se” tudo na mão de Chávez? Ora, que ironia o termo “descentralização”.

É verdade que na maioria dos países o povo também não opina sobre os rumos deste setor, mas pelo menos não existe a hipocrisia de se nacionalizá-lo sob a justificativa de se estar entregando-o ao “poder popular”.

A verdade nua e crua é que o controle que foi instituído tem objetivos políticos e ponto final. Visa enfraquecer ainda mais a oposição. Visa estender além do que já está estendido o poder do regime chavista.

A realidade é que “desde que o presidente perdeu apoio em uma série de postos-chave nas eleições locais do ano passado, entre eles a prefeitura de Caracas, tem havido uma disputa constante sobre jurisdição entre o governo federal e prefeituras e governos estaduais”.

E mais. Desde quando Hugo Chávez é o povo? Desde quando sua personalidade e suas vontades se confundem com as da população? Isso é puro caudilhismo, é puro personalismo. É um absurdo um governante achar que foi eleito para representar uma entidade que quando expressa sua vontade pessoal está, automaticamente, emanando o querer do povo. Que presunção!

E se fosse assim, o que impediria que os governadores, que estão perdendo a jurisdição sobre os setores que agora estão sob controle de Chávez, dissessem que eles, também eleitos pelo povo, é que emanam pessoalmente a vontade da sociedade?

Isso sem falar na Assembleia totalmente cooptada, ocupada apenas pelos membros que representam a situação, que aprova qualquer matéria que Chávez propuser, sem nenhum controle, sem nenhuma restrição, sem nenhum vislumbre de que o pretendido por Chávez, possa, um dia, não corresponder ao que é melhor para o povo.

Chávez foi eleito para liderar, ouvir o povo e o levar ao encontro do que deseja, coordenando. Chávez não foi eleito para escolher o que quer e dizer que é isso o que quer o povo, subordinando. É um autoritarismo descabido, é um personalismo que enoja.

Para completar o circo, “Hugo Chávez, determinou neste domingo que o Exército e a Marinha tomassem os portos e aeroportos do país, com o objetivo de controlar as instalações que estão nas mãos de governos estaduais da oposição. Ele ameaçou de prisão os governadores que tentarem resistir à decisão”.

Eu sou um blogueiro, e principalmente uma pessoa, que respeita as opiniões alheias. Acontece que cada vez mais me pergunto como alguém pode acreditar que os venezuelanos vivem em uma democracia.

Chávez se indigna com os pobres que não votam com ele

Diz Marcos Guterman em seu blog:

“O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, mandou os especialistas em matemática e estatística do Partido Socialista Unido da Venezuela estudarem a fundo os resultados do referendo de 15 de fevereiro. Apesar de sua vitória na votação, que lhe deu o direito de buscar a reeleição eterna, Chávez ficou intrigado com a quantidade de eleitores pobres que ainda insistem em votar na oposição.

Segundo o jornal El Universal, Chávez disse a seus assessores que é preciso descobrir as causas disso e convencer esses eleitores ‘com a verdade’ de que a ‘revolução’ é deles também.”

Chega a ser engraçada, em um sentido ruim, a dúvida de Hugo Chávez. Seria algo como “Como pode ser que eu domine tudo, e eles ainda não votem como eu quero?”. É o tipo de graça que na verdade é triste, advinda da perplexidade.

Embora seja curioso ver Chávez sem explicações para um fato que para ele é inaceitável, sendo esse o não-controle de algum venezuelano pobre por ele, acho que o blog Perspectiva Política pode explicar para o líder venezuelano qual é a causa. Ela parece se dividir em duas partes:

Por um lado, existem pobres venezuelanos votando na oposição pois, por serem deixados sem educação e, consequentemente, sem conhecimento, pelo regime, não formam opinião crítica e, assim, se são suscetíveis à propaganda chavista, também o são em relação à propaganda oposicionista.

Por outro lado, existem pobres venezuelanos votando na oposição pelo simples fato de que, pobreza e falta de estudo não significam, necessariamente, burrice, ou seja, existem outros venezuelanos pobres que, por mais que não tenham chance de adquirir conhecimento, conseguem,  sim, com a vida, criar opinião crítica. Ao verem que suas vidas não melhoram e que os discursos de Chávez não passam de retórica “bolivariana”, decidem votar na oposição com a esperança de que, por mais que não sejam também lá grandes coisas, mudem algo para melhor.

Resumindo, existem aqueles que, por algum motivo, não são ludibriados pela propaganda de Chávez e acabam ludibriados pela da oposição. São os que não racionalizam muito o voto e deixam de apoiar o caudilho sem saber bem o porquê. E existem aqueles que conseguem, mesmo sem muita informação, conhecimento ou cultura, racionalizar o voto no sentido de não querer mais quem não faz nada por eles a longo prazo, apenas provê certos benefícios, que não existiam anteriormente, e isso tem que ser reconhecido, dentro da mesma conjuntura de sempre, a da pobreza endêmica.

Pronto Chávez. Acho que está explicado. Porém, seu instituto de pesquisas encontrará, provavelmente, outra explicação. Deve ser alguma mais bolivariana.

Lógica inexplicável

Disse, sobre a aprovação das reeleições ilimitadas na Venezuela, o Presidente boliviano, e aliado de Hugo Chávez, Evo Morales:

“[A limitação de mandatos] fomenta a corrupção, como pude comprovar nas Prefeituras. Se um prefeito não puder voltar a se candidatar, será mais provável ele roubar durante seu mandato.

[...]

Se puder se ratificar no poder, terá como seguir trabalhando honestamente

Quer dizer então que as reeleições ilimitadas se justificam pois, no vislumbre de roubar durante os sucessivos mandatos, os políticos roubariam menos no primeiro?

E mais. Quer dizer então que se o político pode continuar no poder ele trabalhará honestamente, pois terá seu empreguinho. Se isso não lhe for possível ele provavelmente roubará para garantir uma renda para quando estiver sem mandato?

Pelo visto, embora ele não tenha dito isso e reconheço que não disse, parece que Evo acredita que a corrupção meio que é de se esperar de quem tiver que mamar nas tetas do Estado apenas por um curto espaço de tempo. Pelo menos é o que parece que está sendo dito.

Genial! Brilhante! Sensacional! Estou sem palavras para descrever argumento tão embasado, tamanho raciocínio iluminado, enorme lógica inexplicável.

Pesar ilimitado

É com pesar que este blog anuncia a seguinte manchete:

“Venezuela aprova referendo que permite reeleição ilimitada”

Depois de tentar uma vez, perder, desrespeitar a vontade do povo e tentar de novo, Hugo Chávez finalmente conseguiu as reeleições ilimitadas. Agora o caminho está mais livre ainda para o personalismo, o autoritarismo, a censura, o caudilhismo e o mau uso do dinheiro público.

Os argumentos deste blogueiro que vos fala continuam os mesmos. Se Chávez é democrático, como dizem alguns, porque querer se perpetuar no poder? Por que não apoiar um sucessor com idéias parecidas? Por que fechar a RCTV? Por que tirar diversas prerrogativas do âmbito da Prefeitura de Caracas assim que ela foi conquistada pela oposição?

A democracia da América do Sul perdeu demais hoje. Foi aberta uma brecha para a destruição da alternância de poder, princípio fundamental da democracia. Foi concedido o passaporte para uma ditadura maior do que a que já ocorre. E não me venham dizer que Chávez pode, simplesmente, não ser reeleito. Com as instituições absurdamente nas mãos, obviamente ele será reeleito e quem nega isso é cínico.

Continuarão as nomeações de parentes, os aumentos das cortes de justiça para que maioria dos membros seja chavista e o crescimento do atraso econômico venezuelano. Aumentarão os financiamentos de políticos idênticos a Chávez em outros países a exemplo da Bolívia e do Equador. Tudo isso, agora, com tempo indeterminado. Ilimitado. Assim como meu pesar.

Eu voto “não”!

Está ocorrendo, neste momento, a votação do plebiscito que decidirá, na Venezuela, se ocorrerá ou não a criação da emenda constitucional que permite a Hugo Chávez se reeleger ilimitadamente.

A visão do blogueiro que vos fala sobre o regime chavista é conhecida pelos visitantes mais assíduos. Para os que não conhecerem minha opinião sobre a Venezuela de Chávez, basta clicar aqui e ler tudo que já escrevi sobre o caudilho.

Por tudo que este blog pensa sobre Hugo Chávez e seu governo, não poderia deixar de tomar outra posição senão o apoio incondicional ao “não”.

Pelo bem da democracia, principalmente no âmbito da alternância de poder, pelo bem de todos que são democratas e pelo bem da Venezuela, este blog torce para o “não”.

Embora a oposição tenha sido um tanto sufocada nestas eleições, muito porque Chávez sabe que o risco de perder é grande e até mesmo já perdeu em outra ocasião, mantenho as esperanças.

Lembro a todos que não acho que todo o povo venezuelano odeia Chávez. Penso apenas que ele poderia, simplesmente, apoiar um sucessor, que seria eleito caso a população realmente aprove a plataforma chavista. Acontece que o personalismo não permite, tanto pelo fato de Chávez só desejar ele mesmo no poder e não as idéias, como pelo fato dele saber que seu regime se baseia em sua pessoa e não em projetos de país reais.

A Venezuela realmente carece de outras opções fora do chavismo, a oposição tem que se qualificar, mas isso não justifica a perpetuação no poder de um líder que empobrece seu país, perde momentos históricos favoráveis ao petróleo da nação com gastos fúteis, censura, domina e coopta.

Por isso tudo, eu voto “não”!

Dedicado aos chavistas [2]

Continuando na incredulidade em relação à existência de pessoas sãs que possam crer que o regime chavista na Venezuela é democrático, este blogueiro que vos fala reproduz mais um texto, desta vez de Lourival Sant’anna, do Estadão, que busca exibir qual o cenário da disputa eleitoral em torno da emenda constitucional que autoriza Chávez a se tentar se reeleger quantas vezes quiser.

A parte em que o autor do texto revela que o governo de Chávez proibiu os comícios da oposição chega a ser didática sobre o que se passa no país. E sempre vale lembrar que a tentativa de Chávez de permitir as reeleições ilimitadas é o descumprimento de uma promessa que o Presidente fez ao povo do país, quando disse, após a derrota dessa proposta, que aceitaria a vontade soberana do povo e não mais tentaria aprovar tal matéria.

Sem mais delongas, segue o texto:

Por Lourival Sant’Anna, no Estadão:

“O último dia de campanha antes do referendo de amanhã na Venezuela serviu para evidenciar a desigualdade de condições entre oposição e governo. Depois que o presidente Hugo Chávez encerrou a campanha em favor da reeleição ilimitada em grande estilo, na quinta-feira, na Avenida Bolívar, a mais simbólica de Caracas, a oposição não teve autorização para fechá-la e nem para ocupar os locais alternativos que propôs. Os oposicionistas limitaram-se ontem a distribuir panfletos em vários pontos de Caracas, enquanto Chávez entrou na cidade em caravana, depois de fazer campanha no Estado de Vargas, ao norte da capital.
‘Trata-se da campanha eleitoral mais desigual dos últimos anos, pelo abuso de recursos públicos e pelo claro desvio das instituições públicas’, disse o líder oposicionista Leopoldo López. ‘Não nos deram permissão para fechar a Avenida Bolívar, mas não importa. Assim como nos disseram ‘não’, diremos ‘não’ no domingo.’ Na quinta-feira, enquanto o governo encerrava sua campanha em Caracas, os oposicionistas, sobretudo estudantes universitários, realizaram comícios em seis Estados.
Em dezembro de 2007, quando a reforma constitucional proposta por Chávez foi derrotada por 50,71% a 49,29%, a oposição pôde medir forças com o governo, ambos levando dezenas de milhares de pessoas para as ruas de Caracas às vésperas do referendo. O mesmo havia ocorrido noutras disputas – foram 15 votações desde que Chávez assumiu o poder, em 1999.
Desta vez, o Ministério de Interior e Justiça e a prefeitura de Libertador – o distrito do centro de Caracas – negaram oito pedidos de autorização da oposição para realizar seu comício de encerramento. O prefeito de Libertador, Jorge Rodríguez, acumula as funções de coordenador da campanha em favor da emenda constitucional.
De acordo com o líder estudantil David Smolansky, 30 mil estudantes estarão mobilizados no domingo para encorajar os eleitores a votar e para fiscalizar a votação. ‘Estamos chamando para votar ‘não’ pelo futuro, a esperança, o progresso, e a abertura dos diferentes espaços’, declarou o dirigente. ‘Para que não coloquem um teto sobre nós e sejamos atores de nosso presente e futuro.’”

Dedicado aos chavistas

O texto reproduzido por mim abaixo é dedicado aos que conseguem acreditar que regime chavista da Venezuela é democrático. Algo que eu, embora tente sempre ser razoável e olhar prós e contras, não consigo fazer.

Também não consigo crer quando muitos dizem que as reeleições ilimitadas, se aprovadas, não atacarão a democracia, argumentando que Chávez poderia, simplesmente, perder. A realidade é que, garantidas as reeleições ilimitadas, Chávez, com seu controle das instituições, se reelegerá sempre. Não muito democraticamente, claro.

Eu acredito que se o regime agrada o povo, Chávez poderia, simplesmente, tentar eleger um sucessor que mantivesse sua plataforma. Mas parece que isso é impensável para um personalista.

Mas isso é assunto para outra postagens. Sem mais delongas, segue o texto:

Por Juan Forero, do Washington Post, no Estadão:

“Em novembro, Antonio Ledezma, notório adversário do governo venezuelano, derrotou o candidato escolhido pelo presidente Hugo Chávez para ocupar o cargo de prefeito de Caracas. Foi uma derrota amarga para Chávez, não apenas porque a prefeitura é importante, mas porque Ledezma foi ultrajado pelo presidente e por seus partidários.
No entanto, Ledezma se enganou se pensou que ganhar o cargo significaria controlar a máquina administrativa da cidade. Armados, partidários de Chávez tomaram a prefeitura e três outros edifícios do governo. Escritórios foram revirados e computadores, roubados.
Também descobriram que o prefeito anterior, Juan Barreto, havia contratado milhares de chavistas radicais para fazer proselitismo para a chamada revolução bolivariana do presidente. Até a semana passada, o Palácio da Prefeitura estava coberto de pichações. As janelas estavam quebradas e a porta da frente estava trancada com cadeado. Sobre as paredes era possível ler frases como “este é um território chavista” e “somos maus perdedores”.
‘Segundo a terminologia esportiva, nós ganhamos o jogo, mas as autoridades desportivas decidiram que não ganhamos, que perdemos’, disse Carlos Melo, diretor dos centros esportivos da cidade, muitos dos quais passaram para o controle federal dias antes da eleição. ‘Eles ficaram com as instalações, tomaram edifícios e repartições, em uma violação das normas mais elementares do jogo democrático.’
Falando à televisão estatal na terça-feira, Chávez declarou que Ledezma e outros políticos da oposição eleitos em novembro haviam assumido seus novos cargos acompanhados por multidões violentas. Segundo o presidente, eles demitiram trabalhadores de forma aleatória, como parte de um complô para derrubá-lo.
Em um dos edifícios ocupados por partidários de Chávez, Nelsiy Rojas foi uma das funcionárias demitidas. Ela acusou Ledezma de querer pessoas que defendem sua linha contrária ao governo. Mas também admitiu que seu trabalho incluía fazer campanha para os programas do presidente. “Ledezma demitiu 7.200 funcionários da prefeitura simplesmente porque não concorda com nosso trabalho nas comunidades, que consiste em estimular o processo revolucionário, entre outras coisas”, disse Nelsiy.”

Unanimidade falsa, dados duvidosos e megalomania

Todos sabem que pauto esse blog na imparcialidade, tanto informar e conscientizar, principalmente os jovens como eu, de modo idôneo e sem ser tendencioso. Porém, infelizmente, não posso deixar de fazer prevalecer minha opinião pessoal quando o assunto é o entendimento de alguns de que Hugo Chávez é democrata.

Não aceito. Para mim Chávez é autoritário, criador de uma elite de aliados do regime, cooptador de instituições, adepto da censura e um mau gestor do dinheiro público. E nada disso combina com democracia. Sobre o argumento de que a oposição também é contaminada, concordo. Acho que é verdade e que a Venezuela necessita, realmente, de opções. Sobre o argumento de que o apoio popular ao regime legitima a vontade chavista de se reeleger inúmeras vezes, discordo. Se o regime é amado, que se eleja um sucessor. Ora bolas, por que não? Por que o personalismo?

Alguns defensores de Hugo Chávez dizem que o “sim” em relação ao plebiscito que trata de uma proposta de emenda parlamentar, que permitiria ao líder venezuelano se reeleger de forma ilimitada, tem apoio de larga maioria da população.

Pode até ser que tenha, afinal, os institutos de pesquisa venezuelanos, tanto do governo, quanto da oposição, não são muito confiáveis. Porém, eu, que já desconfiava dessa maioria, até porque a idéia já foi derrotada no país e agora está sendo reapresentada, contrariando promessa feita por Chávez ao povo, agora tenho uma certa certeza de que ela não existe.

Segue abaixo, trecho reportagem do Estadão que corrobora minha opinião:

“Uma multidão estimada pelos organizadores em 600 mil pessoas saiu ontem às ruas de Caracas para protestar contra a emenda constitucional que – se aprovada no referendo do dia 15 – abrirá a possibilidade de reeleições ilimitadas para o presidente venezuelano, Hugo Chávez, atualmente em seu terceiro mandato (ele se elegeu em 1998; em 2000, sob as normas da Constituição de 1999, e em 2006).

A marcha pelo ‘não’, convocada inicialmente por estudantes universitários, percorreu 18 quilômetros, com os manifestantes exibindo camisetas e cartazes com o slogan ‘não é não’ – em referência à derrota imposta pela oposição a Chávez em 2007, quando uma emenda semelhante foi rejeitada

Três pesquisas de opinião divulgadas ontem mostram que a proposta de Chávez lidera com uma margem que varia de 3% a 16%, dependendo do instituto de pesquisa“.

Façamos a conta prejudicando meu pensamento e levemos em conta que Chávez lidera por 16%. Isso se chama amplo apoio da maioria da população? Acho que não. O que me parece é que tem gente que concorda com o que Chávez faz e quer dizer para nós que todos os venezuelanos também concordam.

E essa vontade de se convencer as pessoas de que o povo local ama seu governo, me lembra o que ocorreu anos atrás em relação a um país com situação e governo parecidos. Cuba.

Chávez vai no mesmo caminho de Fidel. No início, empreendeu reformas importantes. Mais tarde, não deu espaço para nenhum sucessor, tomou todas as rédeas com suas mãos. A megalomania o transformou.

Próxima Página »