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Lula vê benefícios em polarização com FHC

Kennedy Alencar, da Folha, revela que o Presidente Lula, após se irritar inicialmente, entendeu como positivo o fato de Fernando Henrique Cardoso criticar Dilma Rousseff, Lula e o governo como um todo.

Segundo o jornalista, o Presidente entende que, ao polarizar com Lula, FHC facilita a construção do futuro discurso petista de comparação das duas gestões. O que, para a equipe do governo, facilitaria a eleição de Dilma por contrapor os feitos do PSDB e do PT.

Acontece que os governistas acreditam que, para o povo, em uma comparação entre as duas gestões, a de Lula sairia ganhando, não só pelo fato de terem sido obtidos melhores resultados econômicos e criados programas sociais mais abrangentes, como também, pelo segundo mandato de FHC ser muito mal visto pela população.

Essa análise do governo, em minha opinião, tem certa lógica. Talvez a oposição erre ao fazer de Fernando Henrique, seu interlocutor. Porém, por outro lado, tendo FHC como crítico do governo, o PSDB pode estar pensando em liberar os seus pré-candidatos da tarefa de fazerem os ataques mais duros, possibilitando assim a tal estratégia “pós-Lula” ao invés de “anti-Lula”.

Resumindo, a polarização de FHC com Lula, provavelmente, será melhor para o PT e para Dilma, considerando-se a visão da população em geral, porém, se por acaso Serra e Aécio conseguirem se descolar de FHC, os ataques dele podem servir para atingir o governo, mas não, para prejudicar seus pré-candidatos na campanha.

É esperar para ver, afinal, partindo de um pressuposto de polarização positiva para Lula, o PT fará de tudo para atribuir a Serra, ou Aécio, o título de continuador do governo de Fernando Henrique. Para muitos, isso não representaria algo ruim, porém, para outros muitos, isso poderia, sim, atingir em cheio a candidatura tucana.

30%: Piso ou teto de Dilma?

Enquanto os petistas mais engajados na campanha de Dilma Rousseff acreditam que a Ministra possa chegar aos 30% de intenções de voto até o início da campanha presidencial e, a partir daí, crescer durante os meses de disputa, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso declarou que acredita que esses mesmos 30% sejam o teto de Dilma, e não, o piso.

Os petistas acreditam que Dilma possa, com o papel de “mãe” do PAC e com o apoio do Presidente Lula, conseguir 30% até a campanha que seriam expandíveis.

Para FHC, esses 30%, que devem ser alcançados no início de 2010 na sua opinião, seriam um teto natural do petismo, e não só de Dilma, que só seriam ultrapassados pela força pessoal do candidato. Para o ex-Presidente, Lula tinha essa força, Dilma não.

É esperar para ver se os 30% são o piso ou o teto de Dilma.

A popularidade de Lula, Dilma 2010 e a crise

Disse este blog, em 16/10/2008, ou seja, aproximadamente 5 meses atrás, na postagem “Lula e a prova da crise”:

A crise internacional chegou para ficar, ninguém mais guarda dúvidas quanto a isso. Outra coisa sabida hoje é que o Brasil será atingido sim, não por algo gigantesco, mas por algo bem maior que uma marola.

A oposição sempre disse que Lula era sortudo, que teria feito uma administração péssima do país caso tivesse encarado uma crise econômica das brabas. Em suma, a oposição justifica o governo ruim de FHC em seu segundo mandato dizendo que ele foi vítima das crises internacionais. Aproveitam para dizer que Lula só faz um governo melhor que o de Fernando Henrique pois não enfrentou crises semelhantes.

Estamos então em um momento de prova, um momento de verificação. Lula tem, com a crise que se aproxima cada vez mais, a chance de provar ao país que seu governo é mesmo melhor, que sua administração foi e é mesmo mais competente. Se o país atravessar a crise, que é muito maior do que as que FHC enfrentou, com certa tranquilidade, provará que o PT soube mesmo guiar nossa economia. Se o governo Lula fracassar no manejo da crise, e o país afundar de forma significativa, estará comprovada a tese tucana.

[...]

Lula acredita na primeira tese. Ele acredita que o país sairá da crise demonstrando que se fortaleceu nos dois mandatos conquistados pelo PT, que a “desculpa esfarrapada” da oposição vai cair por terra e que, de quebra, Dilma vai se fortalecer para 2010 com a comprovação do sucesso do governo petista. Tenho minhas dúvidas sobre se Lula está correto, mas também não posso afirmar hoje que o PSDB é o senhor da verdade. Daí a ansiedade quanto ao resultado da prova que será enfrentada por Lula. Será praticamente uma avaliação final, daquelas que as escolas aplicam no fim do ano. Lula pode tirar 10, mas também pode tirar uma nota abaixo de 5. Quem viver, verá.

Sobre este tema, diz reportagem recente do jornal O Globo entitulada “Crise na economia já atinge articulações para candidatura de Dilma em 2010, mas governo ainda aposta no carisma de Lula”:

“Apesar de um discurso otimista, a avaliação no Palácio do Planalto é que o agravamento da crise financeira internacional no Brasil pode começar a afetar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ter reflexos, inclusive, na candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência da República. O temor de uma recessão em 2009, a partir da queda de 3,6% do PIB no último trimestre de 2008, acima do esperado, assustou não só a área econômica do governo, mas também o núcleo político.

O consenso entre integrantes do governo, da oposição e de cientistas políticos ouvidos pelo GLOBO é que, até agora, Lula segura os índices de aprovação do governo com a sua capacidade de produzir discursos otimistas. Mas já se considera que isso pode não bastar. Para analistas de pesquisas e políticos, Lula tem conseguido passar a imagem de que o governo age para enfrentar os efeitos da crise internacional. Agora precisará mostrar as ações, de fato. “

Aí está, a prova prevista pelo blog começou.

PIB cai forte e a solução não é nem marolinha, nem torcer contra

“PIB cai 3,6% no quarto trimestre; expansão da economia em 2008 fica em 5,1%”

Se por um lado o PIB cresceu na soma total anual, por outro, o resultado do quarto trimestre foi horrível. Isso significa que se por um lado o país não vai tão mal assim, por outro, a crise é muito maior do que uma marolinha.

Repudio totalmente aqueles que parecem torcer contra o país. Por mais que eu discorde de algumas atitudes do governo, principalmente aquelas no campo do combate à corrupção e ao loteamento de cargos, o Brasil está acima de tudo. Torcer pela crise é torcer contra o país. Torcer contra o governo de Lula é torcer contra o país. Isso, para mim, é impensável.

Dito isso, é inevitável observar que se não podemos, em hipótese alguma, nos sentir felizes ao ver o Brasil tendo problemas financeiros, também não podemos minimizar os problemas.

Estão errados aqueles que torcem para que a crise chegue com força para que Lula perca popularidade e Dilma perca a eleição. Também estão errados aqueles que mantém a idéia da marolinha e dizem que proteção feita pelo governo Lula para a economia brasileira é invencível.

Nada de comemorar a confusão, nada de fingir que ela não existe. Em um momento de crise, onde os mairores afetados são os trabalhadores, os mais pobres, os mais humildes, e não os políticos que disparam farpas diretamente de seus gabinetes climatizados, devemos agir com bom senso, acima de tudo e de todos.

O governo deve ser precavido, deve admitir que existem problemas no horizonte, deve fazer o que está ao seu alcance para diminuir os efeitos do impacto, ao invés de ficar torcendo para que tudo dê certo e se comprove que Lula fez um grande trabalho.

A oposição deve se unir aos esforços, deve cooperar, deve opinar, deve sugerir, deve ajudar, ao invés de, como muitos, torcer para que tudo piore, tudo se desestabilize, para provar que a equipe de Lula não sabia o que estava fazendo e apenas seguiu um caminho trilhado por FHC e contou com uma boa conjuntura econômica externa enviada pelo divino.

Parece que se esquecem, como sempre aqui no país, que maior que os políticos, é o Brasil, que maiores que Lula e FHC, são os brasileiros, que muito mais importantes que os cacifes políticos são as saúdes financeiras e estabilidades familiares dos trabalhadores.

Chega de torcer contra e chega de marolinha. O Brasil precisa de responsabilidade. Dos dois lados. PT e PSDB não são times de futebol e seus partidários não são torcedores que se regozijam com a desgraça alheia. Não existe um campeonato mais importante do que o país que está aí para ser governado.

FHC e Aécio discordam sobre as prévias

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso deu declarações recentes que vão de encontro ao desejo do Governador mineiro Aécio Neves. O Governador respondeu e a troca de farpas que só prejudica o PSDB, e mostra ao país que o partido não se entende internamente, parece ter apenas começado.

FHC disse que, embora a idéia geral das prévias não possa suscitar discordâncias, pelo fato de ser ela um meio democrático de escolha de candidatos, seria um tanto difícil fazer isso nesse momento.

Segundo o Portal G1, mesmo sem mencionar o convite de Aécio ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB), para que ambos percorram juntos o país, em pré-campanha para as prévias, o ex-presidente fulminou a sugestão: “Eles são governadores, têm de trabalhar. Não podem sair pelo Brasil a fazer prévias e não trabalhar.”

Aécio, que obviamente responderia às críticas ao seu projeto, retrucou dizendo que “não se constrói projeto em gabinetes na Avenida Paulista”. O Governador mineiro disse ainda que “talvez” o ex-presidente não tenha sido informado com clareza sua proposta.

Disse ele: “O que eu tenho dito é que seria importante que nos finais de semana nós pudéssemos andar pelo país porque além das nossas tarefas administrativas – e, no caso de Minas, me parece que os mineiros julgam que ela vai bem -, nós temos também responsabilidades políticas na construção de um partido, na construção de propostas”.

A realidade é que José Serra é o favorito de Fernando Henrique e que as prévias são mais favoráveis a Aécio do que ao Governador paulista.  Sendo assim, FHC falará contra elas. Não só por preferir Serra, como também por saber o risco que elas podem significar para o projeto do partido. Fernando Henrique sabe que se as prévias podem, por um lado, fortalecer os nomes tucanos nacionalmente, também podem causar desgastes irrecuperáveis para a disputa maior contra Dilma.

Para Aécio, as prévias parecem trazer só benefícios, enquanto para Serra, é provável que as prévias só lhe tragam riscos que poderiam ser, na concepção de seus aliados mais próximos, desnecessários, caso Aécio aceitasse, através de acordo, apoiar o paulista.

Enquanto o bafafá vai tomando vulto e as farpas começam a voar, desgastando desde já o partido e insinuando que um consenso não será atingido, José Serra fica mais quieto, observando o embate entre Aécio e seu defensor, FHC.

Serra não comentou a divergência entre Aécio e FHC e se limitou a declarar recentemente que o PSDB não tem o talento de marketing do PT. Segundo ele, “a galinha põe o ovo pequeninho, mas cacareja e todo mundo vê. Já a pata põe o ovo maior, mas fica quietinha e ninguém nota. A gente [o PSDB] está mais para o lado da pata”.

Realmente parece que os tucanos precisam aprender um pouco de marketing. Marketing pessoal. Dizem os especialistas que a pessoa que quiser ter uma boa imagem junto aos outros deve saber que “roupa suja se lava em casa”, e não, em público, que dirá na imprensa.

Enquanto isso, Dilma vai fazendo campanha se utilizando das prerrogativas de  ser Ministra. E a realidade é que ninguém pode reclamar de nada, afinal, ela está, segundo a justiça, se utilizando de um direito adquirido por “gerir” o PAC. Eu até acredito que ela esteja ultrapassando certos limites, porém, a justiça eleitoral é a justiça eleitoral e, no fim das contas, é ela que decide.

No fim das contas, as prévias realmente são uma boa idéia mas poderiam, sim, desgastar os candidatos do PSDB. Talvez o partido ache que é melhor não pagar para ver e buscar um acordo interno.

Aécio bate o pé contra isso pois as prévias apenas o beneficiariam, espalhando seu nome pelo país e provando que ele conseguiu o que queria, além de dar ótima desculpa para apoiar Serra sem se sentir atropelado.

Saiam as prévias ou não, as divergências já estão na mídia, logo, o desgaste já está ocorrendo. O meio de escolha do candidato, me parece, deve ser decidido logo, mesmo que o nome em si demore mais a sair. Do contrário, haverão cada vez mais prejuízos.

Se por um lado eu gosto muito da idéia das prévias, por outro, devo admitir que FHC está certo ao dizer que seria muito difícil formatar algo assim nesse momento. Só a escolha do colégio eleitoral tomaria esforços gigantescos e demandaria negociações intermináveis.

Tempos de uma UNE mansa

Para qualquer democracia que deseja ser forte e ter instituições sólidas, uma das piores coisas que pode acontecer é a cooptação de certos órgãos, principalmente os responsáveis por se opor aos erros cometidos pelo governo, através da concessão em benefício deles, pelo Estado, de vantagens e verbas públicas.

Em resumo, é altamente nocivo para a vida democrática de qualquer nação que grupos que, em teoria, estariam dispostos a denunciar qualquer tipo de irregularidade cometida por qualquer um que estivesse no poder, receba agrados daqueles que ocupam o governo. É como se, por controlarem os meios do Estado, alguns governos tentassem se livrar de certas oposições incômodas.

Uma dessas oposições incômodas, em outros tempos, advinha dos estudantes. Independentemente de quem fosse o governante, as organizações de estudantes, como a UNE, colocavam a “boca no trombone” quando o quesito era a falta de ética ou as más políticas públicas. Enfim, houve um tempo, onde esses órgãos constituiam importante megafone da parcela jovem da sociedade, aquela que sempre traz a renovação, a mudança, a modernidade e os novos paradigmas.

Acontece que, de uns tempos pra cá, é fato que a UNE está um tanto cooptada. Por mais que eu acredite profundamente que isso não atinja a todos os membros da União Nacional dos Estudantes, não há como negar que existe relação estreita entre o comando da entidade e o governo atual, o que, na teoria, não configuraria problema algum, não fosse o fato de o governo, curiosamente, não estar mais sendo oportunado pelos questionamentos dos estudantes.

É claro que nada pode ser provado e seria totalmente leviano de minha parte afirmar algo com certeza total, porém, qualquer pessoa com um mínimo de intelecto pode realizar a conexão lógica entre o recebimento de verbas estatais por uma entidade e o abafamento de suas críticas contra quem a concedeu as tais verbas.

Como sempre digo em relação a instituições que deveriam ser vigilantes dos governos mas não as são, é triste ver representantes legítimos de parcelas importantíssimas da população brasileira se calando e mal representando seus membros, que nada tem a ver com isso, por conta de alinhamentos políticos ou ideológicos.

No caso específico da UNE, se foi ela uma das lideranças da sociedade civil contra Collor e se foi ela uma das vozes contra FHC, era natural que se esperasse que criticasse escândalos éticos do governo petista. Como não o fez, vem às nossas cabeças o inevitável pensamento de que isso foi motivado pelo governo atual ser do PT, que tem conexões antigas com o movimento estudantil. E não digo isso para clamar que a UNE fale contra o PT, nada disso, fez certo a UNE ao falar de Collor, fez certo a UNE a falar de FHC e fará certo a UNE se passar a falar de Lula ou venha a falar do próximo Presidente, seja ele petista, tucano, ou de qualquer outra legenda.

Em suma, não se pode ser, como eu, estudante universitário, e não ficar um tanto incomodado com o fato das verbas estatais, que não foram poucas, terem diminuído consideravelmente os ruídos vindos da União Nacional dos Estudantes.

Para provar com dados o que digo, seguem trechos de reportagem, sobre o assunto, do Correio Braziliense:

“A União Nacional dos Estudantes (UNE) ganhou na loteria no governo Lula. O repasse do Poder Executivo à entidade aumentou em 20 vezes nos últimos cinco anos. A soma dos recursos públicos transferidos chega aos R$ 10 milhões no período. Em contrapartida, as sexagenárias manifestações independentes e de críticas ao governo federal desapareceram. No lugar, sobra bajulação. Fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com dirigentes da entidade são exibidas com pompa no site da UNE.

O crescimento da verba recebida do governo foi meteórico. Os recursos saltaram de R$ 199 mil em 2004 para R$ 4,5 milhões no ano passado. Mas não parou por aí. O montante tende só a crescer em 2009: R$ 2,5 milhões já foram depositados na conta da UNE neste ano, segundo levantamento obtido pelo Correio no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Nada mal para quem recebeu cerca de R$ 1 milhão em oito anos do governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

[...]

A presidência da UNE está nas mãos do PCdoB há mais de 15 anos. O partido tem como representante no governo o ministro dos Esportes, Orlando Silva, que presidiu a entidade estudantil entre 1995 e 1997. Em janeiro passado, o ministério comandado por ele liberou R$ 250 mil para patrocinar a bienal de cultura da UNE, realizada naquele mês em Salvador.

Cerca de R$ 6,2 milhões do dinheiro público repassado pelo governo Lula saíram dos cofres do Ministério da Cultura. Pelo menos seis convênios com a entidade foram alvos de tomadas de conta especial, um processo administrativo interno aberto sempre que aparece indício de irregularidade que possa dar prejuízo ao órgão público. Um deles refere-se à participação da UNE em paradas de orgulho gay em 2006. Cerca de R$ 37,5 mil foram repassados à entidade e até agora a prestação de contas não foi aprovada.”

Se por acaso o certo silêncio da UNE não seja real, seja só uma impressão errada do blogueiro que vos fala, ou se o fato de existir sim um certo silêncio não tiver nada a ver com o repasse de verbas, eu estou aberto a ouvir qualquer tipo de explicação. Só não tenho muitas esperanças de que ela venha.

FHC e a dificuldade da oposição

Fernando Henrique Cardoso, ex-Presidente e líder de honra da oposição, escreveu artigo, publicado hoje, onde fala sobre diversos temas relacionados à política, desde o assunto óbvio que é a sucessão presidencial até política externa, passando pela entrevista de Jarbas Vasconcelos. O que chama mais atenção é o fato de FHC assumir o fato da oposição estar encontrando dificuldade para construir um discurso que se oponha ao governo Lula.

Por considerar que o texto reflete interessantes opiniões sobre a política externa, principalmente no que diz respeito a Barack Obama e Hugo Chávez, além, claro, de acreditar que seja importante para qualquer um que acompanha o cenário político, saber como FHC encara a falta de discurso oposicionista do PSDB, reproduzo o artigo na íntegra:

“Andou na moda falar de decoupling para dizer, em simples português, descolamento entre a economia brasileira e a internacional. Os efeitos da crise em nossa economia fizeram o termo sair de moda. Foi substituído por expressão mais terna, marolinha. Com o bicho-papão corroendo o mercado financeiro lá fora (na verdade o sistema financeiro central quebrou) há certo aturdimento. Não se sabe com que palavras qualificar o que anda pelo mundo: recessão prolongada, depressão, fim do unilateralismo americano na política, multipolaridade, não polaridade, etc. Por aqui o governo prefere passar em marcha batida sobre o que nos azucrina. Em vez de desenhar quadros sombrios ou róseos para o mercado, faz o decoupling à moda brasileira: descola a economia da política, precipita o debate eleitoral e, nele, vale o discurso vazio.

É verdade que não somos os únicos a encobrir as angústias apelando a gestos sem conotação, sequer alusiva, aos fatos e circunstâncias. Basta mencionar a campanha bolivariana pela reeleição perpétua, uma quase caricatura da política. O significado da democracia se esboroou na ‘consulta popular’. Se o povo quer o bem-amado para sempre, pois que o tenha e, como disse nosso presidente Lula, se a prática ainda não é boa para o Brasil é questão de tempo. Quando a cidadania amadurecer encontrará a fórmula de felicidade perpétua…

Assisti na TV, por acaso, o último comício eleitoral do presidente Chavez em Caracas e, confesso, fascinei-me. Ele chegou, simpático como sempre, um pouco mais gordo que o habitual, vestindo camisa-de-meia vermelha, abraçando a toda gente, sorrindo, e foi direto ao ponto: ‘hoje não falarei muito, vamos cantar!’ disse. E entoou uma canção amorosa de melodia fácil, repetindo o refrão ‘amor, amor, amor…’ Conversou com um ou outro no palanque incitando-o a também cantar, falou familiarmente com a plateia e finalizou: amor é votar sim no domingo! Por mais que no plano pessoal possa sentir até estima pelo personagem, não pude deixar de reconhecer no estilo algo que nos é habitual: o modelo Chacrinha de animação de auditório. Funciona, e como!

O descolamento entre a política e a realidade das pessoas (não só a economia), a repetição simbólica de gestos que guardam pouca relação com um ambiente racional, mas ‘ligam’ o ator com a plateia e com a ’sociedade’, está se tornando regra nas atuais democracias de massas. Há algo de encantatório no modo pelo qual a política do gesto sem palavras (ou no quais as palavras contam menos do que a forma) funciona substituindo o discurso tradicional. Quando me recordo do ’sangue, suor e lágrimas’ dito por Churchill ao tornar-se primeiro-ministro em plena guerra contra o nazismo, do discurso em Fulton quando disse que uma ‘Cortina de Ferro descia sobre a Europa’, ou de vários pronunciamentos de Roosevelt como o de posse em plena Depressão, célebre pela frase ‘nada há a temer, exceto o próprio medo’ ou ainda de Getúlio Vargas no estádio do Vasco da Gama apelando aos trabalhadores, e comparo com a retórica atual, há um abismo a separá-los.

E não se diga que é fenômeno de países de ‘democracia pouco amadurecida’. A entronização de Obama como Imperador de todos os americanos, na magnífica posse no Capitólio, se assemelhava a uma grande cena romana. O cenário era tão expressivo, a fusão simbólica do recém eleito com os founding fathers e com os valores fundamentais da democracia americana eram tão fortes, que obscureceram o conteúdo do discurso inaugural. E isso no caso de alguém que, por sua cor e mesmo por sua campanha, trouxe um significado imenso de renovação. Ainda esta semana, na primeira visita presidencial ao Congresso, o que foi dito sobre a crise econômica e sobre o futuro foi menos importante do que o reafirmar o ‘yes, we can’, em um cenário da pátria unida para perpetuar sua glória. Mesmo que o castelo financeiro esteja desabando, a América vencerá, era a mensagem. No caso, nada a ver com Chacrinha, o símile é outro: a invocação do pastor, a reafirmação da fé, e não a troca simbólica de favores, do bacalhau, da bolsa família ou da canção de amor.

Faço esses comentários despretensiosos porque me preocupa o que possa vir a ocorrer no Brasil. A mídia e a sociedade cobram um discurso de oposição. Diz-se, e é certo, que ela deve unir-se se quiser vencer. Mas, que discurso fazer? O racional, da crítica ao desmanche das instituições, do enlameamento cotidiano da política, deveria ganhar mais vigor, dizem. O grito de Jarbas Vasconcellos estava parado no ar e sua entrevista em VEJA deu-lhe um sopro de vida. Mas foi o próprio senador quem mostrou os limites desse tipo de protesto: o governo e o próprio presidente banalizaram o dá-cá-toma-lá. É como nos computadores quando se envia um e-mail e surge o aviso: a caixa está cheia. A caixa da revolta dos brasileiros contra o mau uso da política parece estar cheia. Temo que qualquer discurso ‘político’ seja logo desqualificado pelos ouvintes.

Quer isso dizer que as oposições devam silenciar sobre a perda de substância das instituições, sobre o clientelismo e a corrupção larvar, tudo com a leniência de quem manda? Não. Mas precisam inventar uma maneira de comunicar a indignação e as críticas que toque na alma das pessoas. Este é o enigma da mensagem política, de governo ou de oposição. Tanto o modelo-chacrinha como o do discurso de pregador chega à alma das pessoas. Não estou dizendo que a comunicação política se resolve pela supressão do discurso analítico. Isso seria rendermo-nos a ideia da política como mistificação (o que, aliás, não é o caso de Obama). Mas quando se dispõe de um ícone, como o Plano Real, por exemplo, ou quando o próprio candidato é um ícone, tudo fica mais fácil.

Em nosso caso, as oposições, além de articularem um discurso programático, condição necessária para quem se respeita e acredita nas instituições, deverão expressá-lo de forma a sensibilizar o eleitorado. Para tal, não basta a crítica convencional e a discussão da política, tal como ela ocorre no Congresso, nos partidos e na mídia. É preciso buscar os temas da vida que interessem ao povo. Ademais a comunicação emotiva requer ‘fulanizar’ a disputa para atribuir ao candidato virtudes que despertem o entusiasmo e a crença. Sem eles, a ‘caixa de entrada’ das mensagens da sociedade continuará a dar o sinal de estar cheia e os ouvidos continuarão moucos aos conteúdos, por melhores que sejam. Pior ainda se não os tivermos. Mas só eles não bastam. Programa político só mobiliza a sociedade quando é vivido por intermédio do desempenho de personagens que tratam como próprias as questões sentidas pelo povo.”

O carnaval e o nosso bolso

Na teoria, o carnaval só afeta o nosso bolso na medida dos nossos gastos, certo? Errado. Os políticos brasileiros utilizam meios públicos para se deslocar, para se proteger e, até mesmo, para se hospedar nos dias de folia, ou seja, gastam o nosso dinheiro com a festa de Momo.

Enquanto o brasileiro da classe média pode,  no máximo, pegar seu carro e ir para algum lugar praiano para se divertir ou algum lugar serrano para descansar, não muito longe de casa, sem nenhuma extravagância, e o brasileiro da classe mais pobre nem isso pode, alguns usam o erário para financiar certas despesas necessárias ao seu estilo de passar o carnaval.

Exemplos são os seguranças da presidência da República que viajaram com FHC para o México e o vistoso helicóptero que levou Dilma Rousseff de Recife para Porto de Galinhas.

Enquanto alguns usam, indiretamente, os impostos para financiar certas parcelas de suas despesas, o brasileiro conta o dinheiro para a carne do churrasco no quintal.

Aécio e a “despaulistização” do PSDB

Normalmente, leio artigos do jornalista Ruy Fabiano, mas não chego a transcrevê-los aqui no blog. Dessa vez, por conta da ótima, e útil para os que se interessam pelo tema, análise dos esforços de Aécio no sentido de fortalecer seu nome e “despaulistizar” o PSDB, reproduzo o texto na íntegra.

Acredito que ele em muito contribuirá para o entendimento de vocês, leitores, do cenário da escolha do candidato tucano. Além de tratar, também, da relação do convite do PMDB a Aécio, e do uso desse convite por Aécio como força de valorizar seu passe, com a decisão tucana sobre seu candidato.

Sem mais delongas, segue o texto:

“A idéia de prévias no PSDB, para escolha do candidato do partido à sucessão presidencial, vem da eleição passada, 2006. O hoje líder do partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), foi o seu mentor. A idéia não foi para frente naquela ocasião por ter faltado a Virgílio força política para impulsioná-la. Ele próprio pretendia disputar as prévias, rechaçadas por Geraldo Alckimin.

A adesão do governador de Minas, Aécio Neves, à tese encontra apoio natural em Arthur Virgílio, que continua a vê-la como fator de motivação partidária e, ao contrário do que se apregoa, indutor da unidade. Não é o que pensa, no entanto, o guru do senador, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. E isso o neutraliza.

O PSDB paga caro por seu sotaque paulistano. É lá que foi gerado, e é lá que estão suas figuras principais, o que faz com que freqüentemente atropele ou mesmo ignore suas lideranças mais expressivas nos demais estados. Mesmo no âmbito do interior do estado de São Paulo, há reação a essa centralização paulistana, de que é exemplo o comportamento rebelde de Geraldo Alckmin na recente eleição municipal.

Aécio reproduz agora a reação que teve em 2002 o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati, que quis também desafiar José Serra na sucessão de então, sem êxito. Tasso foi derrotado, mas contribuiu para que o partido partisse desunido para a campanha eleitoral, vencida por Lula.

Aécio sabe que tem pouca (ou nenhuma) chance contra a seção paulistana do partido. Mas pretende manter esticada a corda até quando lhe for possível, de modo a impedir que os demais estados, sobretudo o seu, fiquem para trás nas decisões em torno da disputa.

Quanto mais mantiver sob tensão o partido, mais fortalecerá seu cacife político pessoal. A idéia de trocar de legenda e ingressar no PMDB, partido que vive a cortejá-lo, existe, mas, por enquanto, apenas compõe seu arsenal de ameaças. Ele teme o PMDB, por sua natural fragmentação. É um partido de caciques regionais, unido apenas pelos interesses fisiológicos de apoio ao governo federal.

Não há uma liderança nacional, como o foi no passado Ulysses Guimarães, que possibilitava alguma unidade à legenda. Aécio poderia ocupar esse lugar, mas receia que já não haja espaço para aquele papel. Desde que se viu privado de Ulysses, o PMDB investe na sua descentralização, que lhe permite fechar acordos em frentes antagônicas. Neste momento, por exemplo, parte do partido fecha com a candidatura de Dilma Roussef, enquanto outra, representada pela seção paulista, sob o comando de Orestes Quércia, fecha com José Serra. O partido quer estar presente no futuro governo, seja ele qual for. A ala que vier a ser derrotada sabe que será absorvida pela vencedora na seqüência imediata da posse.

Foi assim na primeira eleição de Lula, quando o hoje ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, apoiou José Serra. Na segunda eleição de Lula, já governista, Geddel o apoiou, enquanto outros correligionários, cumprindo a coreografia estabelecida, apoiavam Alckmin, mesmo sabendo-o com remotíssimas chances.

Aécio quer ser, no mínimo, um eleitor influente, capaz de garantir espaço expressivo no futuro governo. Se absorver José Serra desde já como fato consumado, terá que se conformar com um papel secundário. Se continuar sendo uma pedra no sapato daquela candidatura, será cortejado. Pode vir a ser o vice ou o indicar, garantindo também alguns ministérios importantes. Pode mudar de partido e vir a ser o candidato. Pode também estabelecer uma dissidência, que o leve a negociar votos com a candidata do PT.

Tudo dependerá dos desdobramentos. Serra, de sua parte, mantém distanciamento da briga para a qual está sendo chamado. Já admitiu as prévias, apenas para esvaziá-las. Há intermediários em cena, empenhados em inviabilizá-las. O bombeiro-chefe da operação é Fernando Henrique Cardoso, amigo de Aécio e defensor da candidatura de Serra. FHC, no entanto, não foi bem-sucedido na operação similar que pretendia, na eleição municipal do ano passado, tirar Alckmin de cena.

Até aqui, não obteve resultados melhores. Ao contrário, já recebeu de Aécio reprimendas por estar insistindo na paulistização do processo sucessório dentro do PSDB. O grande aliado tucano de Aécio não lhe tem sido de valia. É Tasso Jereissati, que, por representar o PSDB pobre – o do Ceará -, pode apenas integrar o coro dos ressentidos dentro do partido.

Mesmo sem chances, Aécio insistirá. Já agendou viagens por todo o país, em busca de apoio junto às seções regionais do PSDB. Com isso, fortalece seu cacife e impõe mais humildade aos tucanos paulistanos, fazendo-os ver que a sucessão não se resolve apenas em São Paulo. Lula assiste feliz ao embate, dando, por motivos óbvios, a maior força a Aécio”.

Serra, as prévias e a pressa

Ontem esse blog noticiou que José Serra consentiu com a idéia das prévias, tão defendida pelo mineiro Aécio Neves. Sobre isso, fiz alguns comentários, mas como o tema é rico em variáveis e consequências, tenho mais algumas coisas a dizer. O principal fica por conta da relação entre as prévias e a pressa do PSDB  em se equiparar ao nível de exposição na mídia de Dilma Rousseff.

Além da aceitação de Serra, ficou meio que estabelecido ontem que as prévias tucanas fariam com que o candidato só fosse conhecido no final desse ano, talvez, até mesmo, no início de 2010. Sendo assim, estaria indo por água abaixo o plano defendido por membros da cúpula do partido, como FHC, e até mesmo por líderes de aliados, como Jorge Bornhausen do DEM, de apressar a escolha do candidato.

Serra, além de dizer que a colocação de seu nome como alguém que se opõe às prévias seria um belo factóide, disse também que a precipitação da disputa “não faz bem para o país”.

Disse o governador paulista: “Não estou falando como candidato nem pré-candidato a nada. Fui eleito governador no primeiro turno, o que nunca tinha acontecido em São Paulo. Estou no meio do mandato e a responsabilidade e o trabalho são imensos. A mega-antecipação do processo eleitoral, sobretudo num momento de crise, não faz bem ao país. Deixa as tarefas administrativas num segundo plano. Não entrarei nessa.”

Em suma, parece que a concordância de Serra não representa apenas que as prévias deverão ocorrer. Quer dizer também, que os tucanos preteriram o plano de escolher logo um candidato para dividir as manchetes com Dilma. A nova concepção é a de que o destaque na mídia poderá ser equilibrado com o advento do noticiário sobre o desenrolar das prévias, além de uma intensificação da oposição ao governo.

Nas próximas semanas, irão sendo finalizados os moldes das prévias tucanas, que ainda aguardam, por exemplo, o resultado de uma consulta ao TSE sobre o que pode ou não ser feito, principalmente no âmbito do financiamento de campanha e da propaganda dos candidatos. O desenho final deve fica pronto em meados de março.

Parece que a pressa do PSDB ainda existe. O fato da campanha de Dilma já ter começado realmente empurrou os tucanos em direção a decisões mais rápidas. Porém, pretende-se que o noticiário seja ocupado pelas prévias e não necessariamente por um candidato escolhido rapidamente. Além disso, fica claro que as prévias devem mesmo acontecer.

Se não acontecessem se Aécio ceder. O governador já conseguiu que Serra aceite pagar esse preço por seu apoio.

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