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Lula é “o cara” não só por ele, mas pelo Brasil como um todo

Recentemente, o Presidente americano Barack Obama disse que Lula era “o cara”. A repercussão do fato foi grande, até porque Obama, espirituoso, afirmou que isso se dava pelo fato do Presidente ser “boa pinta”.

Obviamente, até pelo fato de Obama ser ainda, mesmo depois do desgaste do início do governo, uma voz muito popular, Lula capitalizou politicamente os elogios de Obama. E não há o que ser criticado. Lula está certo em capitalizar, agradecendo a Barack pelos elogios expressados.

Algumas pessoas da oposição dizem que Obama debochou de Lula com classe. Eu acho que não. Acredito que Obama falou sério, o que não quer dizer que ele não tenha interesses envolvidos na declaração que fez e é este ponto que deve ser observado com cuidado.

Na minha opinião, é fato que Obama simpatizou com Lula, o Presidente realmente é carismático, porém, não acredito que os elogios tenham sido de graça. Eles vieram, provavelmente, pelo interesse que os Estados Unidos tem em relação ao Brasil. Como diria o ditado, “países não têm amigos, têm interesses”.

Em resumo, não acho que Obama debochou de Lula, ou que ele tenha fingido gostar do nosso Presidente. Provavelmente deve mesmo ter simpatizado, porém, é inegável que Barack Obama não falaria isso de graça. Ele deveria, sim, querer com isso, aproximar o Brasil de suas posições, conquistando a simpatia de Lula, o que foi conseguido pelo visto, já que dizem que Lula ficou flutuando com os elogios.

O Brasil é, hoje, uma democracia respeitável e um parceiro importante para os Estados Unidos. Um país que tem grande potencial e que logo terá um dos mais importantes mercados consumidores do mundo. Sendo assim, acho que fica claro que, por mais que Lula tenha, sim, seus méritos, e também o direito de capitalizar politicamente os elogios, eles não vieram apenas por ele ser entendido como “o cara” por um Obama simpático, e sim, pelo que o Brasil representa como um todo, sendo Lula, representante disso, e não, personificação.

Lula só pôde ser “o cara” pelo que é o Brasil hoje. Um país que tem mazelas graves, mas que tem avanços reconhecidos internacionalmente. Avanços esses que, em grande parte, aconteceram na era Lula, mas que, porém, não aconteceram exclusivamente nessa era. Muitos outros presidentes, como até mesmo inimigos políticos de Lula, contribuíram para que ele pudesse ser chamado de “o cara” por Obama.

Lula e Obama: Diferentes

“Lula e Obama têm trajetórias semelhantes, diz Dilma”

Já falei sobre este tema neste blog, aqui, mas falarei novamente:

Tirando o fato de Lula e Obama terem sido eleitos presidentes lutando contra tabus e não sendo advindos da classe política dominante, eles não tem nada em comum. As circunstância são totalmente diferentes. Ambos terem pregado a mudança não quer dizer que as mudanças sejam as mesmas. Até porque as situações que desejavam alterar nas épocas das campanhas não eram as mesmas.

Além disso, se por um lado Lula era sindicalista e metalúrgico, Obama é advogado e professor. Se por outro Obama é formado em Harvard, Lula não tem muita instrução.

Ideologicamente também não há muitas semelhanças. Por mais que ambos preguem ideais de justiça social e tolerância, a ligação fica por aí. Lula já foi socialista, Obama afirma sempre ter entendido um capitalismo mais justo como caminho.

Resumindo, aproximar as imagens de Lula e Obama é claramente uma tentativa da equipe do Presidente de fazê-lo pegar carona no rojão.

Totalmente desnecessário.

Barack Obama foi meteórico. Lula tentou a presidência quatro vezes  para conseguir vencer. Barack Obama tem uma incrível oratória que chega a emocionar. Lula chega a usar, algumas vezes, palavras de baixo calão.

A principal diferença é que Lula é um político que faz uma política comum e que, embora tenha seu inegável apreço pelos pobres, pela distribuição de renda e pela justiça social, faz um governo com bastidores como outro qualquer. Existem conchavos e arranjos. Obama, ao contrário, prega ideais de igualdade, de retidão, de honestidade. Obama, embora possa vir a ter um governo maculado, dá a esperança de que isso não aconteça. O democrata mobiliza.

Obama não é o salvador da pátria, não é uma divindade, não é o Superman. Obama pode muito bem desapontar o mundo inteiro. Lula já governa, já teve seu desgaste natural e isso deve ser levado em conta, porém, no geral, a verdade é que Lula, ou talvez sua equipe de marketing, está querendo pegar uma carona no fenômeno Obama, porém, Lula, de Obama não tem nada.

Obama e o congresso brasileiro [2]

Na postagem “Obama e o congresso brasileiro”, escrita ontem, este blogueiro fala o seguinte sobre o fato de Obama ter ido ao Congresso americano para discursar, explicar seus planos para o futuro do país e justificar os rumos que vem escolhendo para a economia nacional:

Quando moramos em um país em que o Presidente acredita que não deve satisfações ao Congresso, que a divisão dos três poderes está aí para brincadeira e que as Medidas Provisórias existem para serem usadas e abusadas, dá uma pontinha de inveja saber que o Presidente americano foi ao Parlamento do país para pedir a cooperação dos congressistas em relação ao seu plano e justificar alguns de seus atos.

Na mesma linha, diz, em artigo publicado hoje, o deputado federal Antonio Carlos Panuzzio, membro da Comissão de Relações Exteriores:

“A transparência que marcou a fala de Obama deve servir de exemplo ao governo brasileiro que, chamado a lidar com a embaraçosa liquidação de postos de trabalho na Embraer, empresa beneficiada por seguidas iniciativas oficiais, tenta fazer a opinião pública acreditar que não sabia que a degola, anunciada com antecedência e até incluída no clipping do presidente, iria acontecer.”

É exatamente isso. Quem dera a atitude de Obama, além de sua transparência, servisem de exemplo não só para Lula, como para todos os governantes brasileiros atuais e futuros.

Obama e o congresso brasileiro

“Obama garante que recuperação da economia agora é lei. Cortes de privilégios e de gastos com guerra são prioridades”

Quando moramos em um país em que o Presidente acredita que não deve satisfações ao Congresso, que a divisão dos três poderes está aí para brincadeira e que as Medidas Provisórias existem para serem usadas e abusadas, dá uma pontinha de inveja saber que o Presidente americano foi ao Parlamento do país para pedir a cooperação dos congressistas em relação ao seu plano e justificar alguns de seus atos.

É claro que nem sempre os presidentes americanos prestam grandes esclarecimentos ao Legislativo, afinal, também não estão no nível da perfeição, porém, é enorme a diferença observada quando se compara uma prática como a de Obama e o que ocorre no Brasil.

Em nosso país, o Legislativo vai cada vez mais perdendo importância, sucumbindo frente aos desmandos do Executivo e das decisões jurídicas do Judiciário, que causam a judicialização da política. Mas isso não ocorre apenas por força da sede dos outros poderes. Acontece também pelo fato dos legisladores, em sua maioria, estarem perdendo a sintonia com a sociedade e se importando mais com seus interesses pessoais e de aliados.

Enquanto a maioria dos congressistas americanos opinam e influem de forma ativa nos rumos que Obama vai ditando para o país, exigindo explicações, no Brasil, a maioria dos parlamentares vive dentro da redoma do Congresso, só se importando com o Executivo no momento de pedir para que um aliado ocupe cargos em um ministério ou empresa estatal.

Os EUA têm seus defeitos, mas mesmo assim dá uma pontinha de inveja e uma grande vontade de que pudéssemos ter algo parecido.

Israel e o perigo do radicalismo

Em todo tempo de guerra, as ideologias que defendem as mesmas ganham mais adeptos, embora muitos deles sejam temporários. A verdade é que me parece que o momento de confronto desperta a rivalidade, a raiva e o sentimento de vingança. Sendo assim, o político que defende o ataque aos inimigos ganha fôlego.

Nos EUA, Bush se elegeu em tempos de luta contra o terrorismo. Agora, em Israel, parece que a direita chegará ao poder. Não tenho grande embasamento em termos de Oriente Médio, porém, posso afirmar com algum nível de certeza que se os tempos em Israel fossem mais calmos, Tzipi Livni, do Kadima e de centro, seria eleita. Como os tempos são de embates, o argumento da direita israelense ganha força e, por isso, essa vertente recebe mais votos.

O Kadima, em tese, venceu as eleições, afinal, obteve mais cadeiras. Se os israelenses vivessem em um presidencialismo, a Presidente seria Tzipi Livni. Porém, como o regime é o parlamentarismo, estando longe de mim querer comparar nesse momento um regime com o outro, precisa-se de coalizão.

A coalizão deve ser de direita pois, se quem venceu foi o Kadima, quem veio logo após foi o Likud, de direita. Sendo o terceiro colocado o Yisrael Beitenu, de ultra-direita, o provável primeiro-ministro é Binyamin Netanyahu, do Likud, e não, Livni, do vencedor Kadima. No fim das contas, os trabalhistas de Ehud Barak não conseguiram dar para a esquerda os mesmos votos que o Yisrael Beitenu de Avigdor Lieberman deu para a direita.

Dito isso, pode ficar parecendo para os leitores que defendo que Israel não ataque, não se defenda, enfim, que eu acredite em uma solução de não-agressão. Sobre esse tema, digo que é verdade que eu sou a favor de um acordo de paz e de uma solução com dois estados. Porém, sendo atacado Israel, tenho convicção de que o país tem todo o direito de se defender. E sobre os argumentos de que Israel se defende de forma desigual, acho que é verdade, mas não que seja tão errado assim. Verdade seja dita, quem ataca um paísmais forte, sabe que receberá represália desigual. Duvido que diriam que um hipotético Brasil atacado pelo Paraguai deveria equiparar suas forças ao que o país opositor poderia conseguir.

Resumindo, não acredito que Israel deva, por ser mais forte, se colocar numa posição de aceitar sem responder com força, qualquer ataque ao seu povo. Quem defende que os israelenses “deixem pra lá” as mortes de judeus só pode estar falando isso sem pensar o que faria se fosse o seu povo. Porém, acho que Israel, ao mesmo tempo, tem o dever de trabalhar para encontrar uma solução pacífica, além de ter sim, a obrigação de ceder territórios, afinal, em muitos deles, ele é o invasor.

Não se pode dizer que Israel não pode se defender de ataques, principalmente aqueles que não são amadores, advindos do povo palestino, e sim, de atos terroristas do Hamas. Mas não se pode aceitar um governo israelense que não quer discutir os termos da paz. Por isso, preferiria um governo do Kadima, que também tem lá seus erros, a um governo do Likud, partido que foi claramente beneficiado pelo momento bélico que o país vive.

Até mesmo Barack Obama se ressentiu da vitória de uma direita um tanto extremista em Israel. O Presidente americano já está repensando se vai mesmo usar seu cacife político para lutar por acordos na região. Isso se dá pelo fato da análise da conjuntura dar conta de que, com a direita israelense no poder, os esforços poderiam ser cansativos, desgastantes e, ainda assim, em vão.

Emocionante

Para alguém como eu, que acredita que a política possa ser algo positivo, indutora de mudanças importantes e de melhora na qualidade de vida da população de um país, ao contrário da crença majoritária no Brasil de que será sempre um antro de irregularidades e falcatruas, é emocionante ver o que Barack Obama desperta dentro das pessoas.

Por mais que Barack venha a ter falhas, e com certeza terá, é comovente para mim ver que ele motiva em torno de um ideal, lidera as pessoas em direção ao que, teoricamente, as fará melhores. É de políticos assim, é de mais idealismo, que precisamos em alguns momentos cruciais da vida política de um país.

É por isso que esse blog nunca se furtará em repercutir demonstrações impressionantes como uma frase, pintada em um muro de uma cidade americana ao lado de uma montagem de Obama vestido com a roupa do Super-Homem, que diz:

Rosa Parks sat, so that Martin Luther King could walk. Martin Luther King walked, so that Barack Obama could run. Obama ran, so we could fly.”

Em tradução livre: “Rosa Parks sentou, para que Martin Luther King pudesse andar. Martin Luther King andou, para que Barack Obama pudesse correr. Obama correu, para que pudéssemos voar”.

Vale ressaltar que Rosa Parks foi uma negra americana que se recusou a sentar no lugar destinado aos negros dentro de um ônibus, lutando com seus meios contra o racismo. Ela se sentou no lugar reservado aos brancos, acendendo o estopim de uma revolução pelos direitos dos negros nos Estados Unidos.

O Rei Presidente

Depois de reproduzir, na postagem “Obama, por Saramago”, texto de José Saramago sobre as propostas políticas de Barack Obama, reproduzo trecho de um artigo, publicado na revista ‘Veja’, de Roberto Pompeu de Toledo, sobre a posse de Obama e, principalmente, sobre a engenharia política da figura do Presidente nos Estados Unidos, de certa forma, sucessora da figura do monarca, sendo personagem central do regime, embora não tenha coroa e seja investido pelo voto e não pelo sangue. É uma ótima definição, principalmente levando em conta os Estados Unidos, do presidencialismo e dos avanços que levaram até ele.

“O presidente dos Estados Unidos é o mais bem-sucedido sucedâneo do rei já concebido pela engenharia política. Eleger um chefe é o passo natural dado pelos primitivos agrupamentos humanos, tão logo se elevam a um grau mínimo de organização. Fazer do chefe um rei, ungindo-o com a mística de um ser especial, por cujas veias corre sangue de cor diferente, e que goza de conexão privilegiada com o divino, é o passo seguinte. Muito mais adiante, quando o cérebro do bicho-homem passa a antepor a razão à superstição e o direito ao arbítrio, a figura do rei entra em obsolescência. Já não se acredita em seres especiais. Mas como, sem um personagem central, investido de suprema autoridade e confirmado pelo sagrado, evitar a anarquia e a dispersão? Os fundadores da nação americana, em resposta a esse temor, inventaram o presidencialismo e, no centro, puseram a figura do presidente. A cerimônia da semana passada em Washington foi a coroação de um rei sem coroa, eleito pelo voto do povo e com mandato fixo – mas de toda forma uma cerimônia de coroação, mais bonita e mais bafejada pela mística do que as cerimônias em muitos dos países que ainda cultuam um rei.”

Obama lá, Bush aqui

Assim como fez Ricardo Noblat em seu blog, reproduzo comentário inteligente e totalmente correto do colunista Elio Gaspari, publicado no jornal ‘O Globo’.

“Tem muita gente boa aplaudindo Barack Obama porque ele proibiu a prática de torturas contra presos. O suplício mais conhecido era a simulação de afogamento. Um pedaço dessa mesma plateia emocionou-se com a valentia do Capitão Nascimento no filme “Tropa de Elite” e com o poder de persuasão de seus sacos de plástico. É um novo tipo de esquizofrenia política. O sujeito é Obama nos Estados Unidos e George Bush no Brasil.”

 

Obama, por Saramago

Saramago

De forma comovente e entusiasmante, gerando em nós uma vontade ainda maior de participar da tal “mudança”, diz o grande português José Saramago, Nobel de Literatura, sobre Barack Obama:

“Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projeto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e coletiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida.

Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons – “Eu também, eu também”. Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vínhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.”

Diálogo, o caminho certo

“Obama tenta aproximação com McCain após eleição”

Uma das coisas que é admirável sobre Barack Obama é sua capacidade de estabelecer diálogo e compor alianças com os republicanos e os independentes, por mais que faça parte do Partido Democrata.

Já é sabido que Obama, com seu bom senso e sua visão mais centrista e, muitas vezes, pragmática, coloca o bem maior e os objetivos em comum à frente das diferenças e divergências políticas vistas por ele como menores. Barack chega a ser conhecido por ser um político que busca a cooperação de antigos adversários, chegando a indicar alguns deles para as suas equipes.

Resumindo, Obama é agregador e faz o certo ao colocar em primeiro plano as necessidades do país e a capacidade de cada um para ajudar a enfrentá-las, em detrimento da ideologia, alinhamento partidário, cor, religião, ou qualquer outra característica, do colaborador. A aproximação dele com John McCain e o estabelecimento de uma ajuda mútua entre o, agora, Presidente e o, ainda, influente Senador, é mais uma prova disso.

Esse tipo de coisa é o que deveria ser chamado de “fazer política” e não muitas alianças espúrias vislumbrando o interesse pessoal dos novos aliados que vemos por aí. São essas atitudes de Obama que fazem políticos como o Senador Lindsey Graham, amigo de McCain e, teoricamente, opositor de Obama, declararem o seguinte sobre essas aproximações do novo Presidente: “Não só isso representa uma posição política inteligente, como nos permite saber com quem estamos lidando de fato”.

Os Estados Unidos, e quiçá o mundo, necessitam, em momentos de crise, de frentes amplas cooperando para a melhoria das condições. É isso que Obama busca construir ao redor de si, emanando um espírito de conciliação e nada poderia ser mais correto que isso.

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