Minha primeira entrevista [4]
Filed under: Outros | Tags: Aécio, Aécio Neves, Ética, Capitalismo, Cidadania, Corrida 2010, Crise econômica, dilma, Dilma Rousseff, Economia, Eleições 2010, Entrevista, Henrique Meirelles, Intervencionismo, José Serra, Liberalismo, Lula, Marolinha, PIB, Política, Política Brasileira, PSDB, PT, Ruy Barbosa, serra, Socialimso |
Segue abaixo a segunda parte da entrevista concedida por mim ao blog Construindo o Pensamento, do amigo blogueiro Yashá Galazzi, que teve sua reprodução aqui autorizada. O processo que levou à entrevista foi explicado na postagem “Minha primeira entrevista” e a sua postagem foi iniciada em “Minha primeira entrevista [2]“, onde foram publicadas as primeiras perguntas e respectivas respostas, e continuada em “Minha primeira entrevista [3]“.
Repito, por nunca ser demais dizer, que publico a entrevista não para me vangloriar do fato, mas sim, para que vocês, leitores, possam saber mais sobre as opiniões daquele que escreve o que vocês estão se dispondo a ler. Acredito que seja um direito de vocês.
Sem mais delongas, seguem as perguntas de número 10 a 14:
10 – Surfemos um pouco nas ondas da – se me permite – “marolinha lulesca”. Como você vê a crise financeira que se alastrou pelo mundo? O colapso do capitalismo, tão alardeado pela esquerda radical, vai mesmo acontecer? Há, de fato, espaço para essa espécie de “revanche marxista” que está sendo cantada mundo a fora? Em resumo: a solução é mesmo dar amplos poderes econômicos ao Estado?
Primeiramente, gostaria de dizer que o Presidente Lula cometeu equívoco ao dizer que a crise era uma “marolinha”. Eu acredito que um líder nacional deva, sim, ser otimista, não podendo passar para os cidadãos um sentimento de aflição ou medo que acabará, com certeza, fazendo com que o receio da população mire um perigo maior do que o real. Porém, acho que também não se pode fazer pouco caso de uma crise. Se o governo Lula não tem nada a ver com o nascedouro da crise, e com certeza não tem, é criticável, pelo menos, sua atitude de tapar o sol com a peneira. Que se dissesse que o Brasil, através do governo, faria o possível para ser atingido o mínimo, mas não que a crise seria uma “marola”, algo sabidamente fraco e pequeno, o que não é o caso, como podemos ver com os dados do PIB.
Sobre o capitalismo, acredito que não seja nem de perto o seu fim. Haverá, sim, uma espécie de aumento do intervencionismo, causado, claro, pelo sentimento de que o estado não soube se regular sozinho. Acho que períodos de prevalência do liberalismo e do intervencionismo se intercalando, assim como aconteceu no passado, é o que tende a acontecer. A tal revanche marxista não deve acontecer. Acho que, como já disse em outra resposta, o embate entre esquerda e direita, hoje, se dá dentro do capitalismo. Sendo assim, pode ocorrer de o intervencionismo aumentar, mas nada que chegue a configurar socialismo ou marxismo, longe disso.
A solução, ao meu ver, não é dar amplos poderes econômicos ao Estado, porém, ela também não perpassa a mão invisível do mercado e o Estado mínimo. Acho que o Estado deve agir na economia com moderação, nos campos necessários, com bom senso. Sou contra certas privatizações, ao mesmo tempo que acredito que em alguns casos a iniciativa privada signifique melhoria do serviço e diminuição de gastos. Resumindo, um Estado médio, garantidor, fiscalizador, regulador, que vise equilibrar desigualdades como a social, mas que, ao mesmo tempo, não se exceda, intervindo em âmbitos que não lhe competem. A verdade é que sou de centro, isso deve influir no meu julgamento.
11 – Qual você considera o maior sucesso do governo Lula? E o maior fracasso?
O maior sucesso do governo foi provar, logo no início, que certas críticas feitas ao Presidente Lula quando ainda era candidato foram totalmente infundadas. Ele não se comportou como um “analfabeto irresponsável” e muito menos como um “comunista radical”. Lula teve sim, responsabilidade, dentro das devidas proporções.
O maior fracasso do governo foi permitir que a maior bandeira do partido que chegou ao poder, a ética, fosse manchada. Escândalos e loteamentos de cargos não combinam em nada com o que o partido pregou em toda a sua história.
12 – 2010 está mais perto do que se imagina e Lula já jogou as cartas na mesa: quer eleger Dilma Rousseff Presidente. Como você vê as chances da “mãe do PAC”? Pessoalmente, acho que alguém com o passado dela, fortemente atrelado à luta armada revolucionária, não conseguiria amealhar votos junto ao eleitorado moderado – desde que, é claro, as oposições soubessem explorar o tema. O que você pensa sobre isso?
Eu acredito que Dilma terá alguma chance se o governo Lula continuar popular e nenhuma chance se o governo Lula piorar aos olhos do povo. Partindo do pressuposto de que Lula manterá a popularidade do governo, acho que Dilma terá alguma chance, mas não será favorita. O favoritismo será do candidato tucano, seja ele quem for. Se Dilma explorar extremamente bem o cacife de Lula, conseguir se comportar de forma correta na campanha e, principalmente, nos debates e contar com um pouco de confusão do lado tucano, ela pode vencer. Porém, repito, não será favorita na minha opinião.
13 – E o PSDB? Vai – pela enésima vez – perder uma eleição ganha? O que falta às oposições brasileiras para que aprendam a confrontar de forma séria, objetiva e programática o governo do PT? Os tucanos estão, de fato, perdidos ideologicamente?
Acredito que, se tudo correr como previsto por qualquer analista mais sensato, o PSDB deva vencer essa eleição. Principalmente se o nome do partido for José Serra. Me parece que o PSDB só perde a eleição para ele mesmo. Se por acaso o partido se enrolar e Dilma estiver preparada para aproveitar essa oportunidade, a reviravolta pode acontecer, mas é remoto.
Acredito que a oposição não confronte de forma séria o PT pelo fato do PT ter feito muito, no governo, do que a oposição faria. O governo de Lula, na economia por exemplo, foi bastante tucano. Até mesmo o Presidente do BACEN, Henrique Meirelles, foi um tucano por muitos anos. A oposição só critica a questão ética e algumas mais pontuais pois, a grosso modo, o governo do PT continuou o do PSDB. Obviamente, se os avanços com Lula foram maiores, e realmente foram, tenham sido os louros dele ou da herança tucana, o povo creditará na conta do PT. Sendo assim, a oposição precisa apresentar alternativas para justificar sua candidatura. Não se pode querer vencer a situação e ao mesmo tempo dizer que tudo está correto. É aí que o partido se perde. Ele tem que criticar alguma coisa que ele mesmo faria. Se você olhar bem, os líderes tucanos só falam da ética e dos juros, não há muito mais o que falar se levarmos em conta que as políticas são muito parecidas. Daí vêm a idéia de Aécio de ser pós-Lula, e não anti-Lula. O PSDB precisa encontrar o ponto da nuance que o separa do PT, por mais que ela seja uma linha tênue e aí se diferenciar, batendo, claro, na tecla da ética.
14 – Para encerrar, gostaria de saber quais as aspirações que Bruno Kazuhiro traz em seu íntimo. Que mundo espera encontrar daqui a dez ou vinte anos? Mais importante: que planeta espera legar aos seus filhos e netos? Quais são, em suma, as grandes ações que as pessoas devem empreender a fim de construir tal realidade?
Eu espero encontrar, daqui a alguns anos, um país melhor. Bem melhor. Por isso escrevo o blog Perspectiva Política, para tentar fazer com que isso aconteça. O bem dos meus filhos e netos caminha junto ao de todos os brasileiros. Nunca pensei só nos meus descendentes, sempre pensei no país como um todo. De que adiantaria filhos com uma vida confortável, rodeados por violência? De que adiantaria netos com uma vida tranquila, rodeados por um clima louco causado pela falta de preservação?
As grandes ações que as pessoas devem fazer não existem. Existem as pequenas ações que, unidas, se tornam gigantescas. É o grêmio estudantil que fomenta debates políticos e conscientiza jovens, é a escola que cobra sociologia em seu currículo, é o pai que ensina ao filho a importância de se lutar pela melhoria do país, é o voto consciente, é tudo isso que fará um país melhor, todos fazendo o seu máximo com esse ideal em mente, sabendo que o desenvolvimento do Brasil é possível.
Desde o papel jogado no chão até o crime do colarinho branco, desde o desvio de verbas públicas até o “gato” de energia elétrica, tudo está interligado e tudo deve ser visto como execrável. As pequenas ações de consciência política e cidadania das pessoas que, somadas, farão a diferença para todo o país e, também, para meus filhos e netos.
Como disse Ruy Barbosa, e eu o cito no perfil que divulgo sobre mim mesmo a fim de que me conheçam um pouco mais no blog, “Se o Brasil for condenado, pelos meus representantes, a continuar a ser, diante do mundo, a fábula dos países miseráveis, risíveis e desprezíveis, não será porque eu não tenha exercido as minhas forças em bradar à nossa pátria.”
Bruno, nada a acrescentar a sua primeira entrevista, a não ser: parabéns!
Carlos,
Obrigado por mais esse comentário. Agradeço o elogio.
Volte sempre!