A divisão tucana chega à Câmara
Este blog vem falando há algum tempo que o maior inimigo do PSDB na eleição presidencial de 2010 seria, não o PT, mas a divisão interna. Se o partido evitar um racha interno no momento em que tem que enfrentar unido uma disputa pelo controle do país, terá meio caminho andado e grandes chances de vencer.
A divisão interna a que sempre me referi, e que o partido deveria, em minha concepção, temer, é a que poderia ocorrer entre os partidários de José Serra e os partidários de Aécio Neves. Porém, para minha surpresa, o PSDB está conseguindo se dividir em torno de decisões muito menos relevantes, piorando mais ainda o quadro.
Nos últimos dias, ficou latente a divisão interna do PSDB até mesmo na Câmara. Tudo ocorreu devido à tentativa do líder do partido entre os deputados, José Aníbal, de continuar na liderança. Outros candidatos ao cargo de líder do partido, e seus pares, denunciaram a eleição de José Aníbal como sendo golpista, alegando que haveria uma impossibilidade dessa reeleição dentro das regras do partido. E, pelo visto, realmente existe. Acontece que ele foi eleito pela maioria e aí tudo se complica. O deputado federal Antonio Carlos Panuzzio, um dos que reclama, disse que Aníbal está se aproveitando de uma “maioria ocasional” para mudar dispositivos internos da bancada do PSDB. A reeeleição fere, segundo os discordantes, uma alteração feita em outubro último no documento que regula o comportamento da bancada. A alteração foi feita para impedir a reeleição. Contou com o apoio do próprio Anibal. Mas como a norma não foi publicada em ata, o ala pró-Anibal entende que ele poderia ser eleito de novo.
A coisa só piorou e, recentemente, 19 deputados tucanos assinaram manifesto que denuncia a eleição de Aníbal como irregular e formaram uma dissidência, que formou o grupo “Unidade, Democracia e Ética”. Eles não seguirão a orientação do atual líder da bancada por considerar ilegítima a sua eleição. Parece que a intervenção do presidente do partido, Sérgio Guerra, será necessária, já que o número de dissidentes representa surpreendente 1/3 da bancada do partido, estando entre eles, nomes como Panuzzio, já citado, Gustavo Fruet, Julio Semeghini, Jutahy Magalhães e Paulo Renato Souza, ex-Ministro e candidato opositor de José Aníbal que, antes da eleição, retirou sua candidatura para poder, mais tarde, denunciar o processo.
Ao que parece, Aécio Neves teria ajudado José Aníbal a se reeleger, incentivando toda a bancada tucana advinda de Minas Gerais a sufragar Aníbal, embora isso seja contrário aos dispositivos do partido, o que irritou José Serra em demasia, não só pelo desrespeito ao acordo prévio, como também pelo fato de Serra e Aníbal não se “bicarem” muito.
Agora vejamos: Se o PSDB não consegue chegar a um consenso em torno do nome de um líder de bancada, atingindo o ponto de deputados importantes e influentes fundarem um grupo de dissidência, o que dizer sobre o esforço de união que partido terá de fazer para entrar compacto na disputa pela presidência? Será que a mobilização partidária em torno de um candidato é tão difícil assim? Chega-se ao ponto de outros partidos, membros da provável coligação de 2010, tornarem o consenso mais fácil do que o próprio partido.
Assim o PSDB vai mal. E, com certeza, esse caso da dissidência terá muitos novos episódios. Todos prejudiciais ao partido como um todo.
2 comentários até agora
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Eu acho que, dadas as circunstancias, o melhor é mesmo que fiquem explítcitos os desentendimentos. O PSDB tem que parar de simular ser um clube de amigos quando, na prática, não é assim. O mehor é justamente que os desentendimentos e os interesses conflitantes sejam postos dessa forma, à luz do dia, como fizeram os 19 deputados. Exatamente por isso acho as prévias benéficas ao partido, e não a pretensa “união” que na prática não existe e nem vai existir. Entre brigas de bastidores e pôr as disputas às claras, sob regras também claras, é melhor a segunda opção. Sobre o caso em si: José Aníbal e seu grupo estão errados e deram motivo para a nota e a disssidencia. Uma crise tem responsaveis, e acho que não são os dissidentes, mas sim o fgrupo pró-Aníbal. A dissidencia, aliás, fez o correto: expos seus descontentamentos de forma transparente e fundamentada.
Gabriel,
Obrigado por mais esse comentário.
Não sou contra o que você defende, até concordo. Acho também que os desentendimentos são naturais e que não faz mal nenhum que fiquem explícitos. Acontece que desentendimentos podem ser discutidos em dois níveis, a discussão aberta que busca consenso e a briga motivada por rivalidades. É na hora que sai a busca de consenso dentro do PSDB entre grupos que pensam diferente e entra a briga que só causa prejuízos que o partido perde. Se o partido parecer que tem vertentes, nada demais. Se o partido parecer uma confusão só, quem vai querer colocá-lo no poder? Não precisa realmente, como você mesmo diz, se fingir uma união fraternal, mas daí a isso ser substituído por uma disputa ferrenha interna que causa cicatrizes, são outros quinhentos.
Sobre o caso, também acho que os dissidentes têm mais razão.
Volte sempre!