A diferença entre um colarinho e uma galinha
Um dos temas mais comentados dos últimos tempos é a operação da Polícia Federal que resultou na prisão, mesmo que curta, do banqueiro Daniel Dantas. Esse blog já tem algum tempo de vida e ainda não falou sobre esse assunto. Isso acaba hoje.
Admito que relutei um pouco em falar sobre esse assunto, pensava que poderia ser um tema que, mesmo tendo a ver com política, se afastaria um pouco do foco principal do blog. O bombardeio de notícias sobre a Operação Satiagraha na imprensa também me fizeram pensar duas vezes antes de escrever sobre isso. Não queria que o blog parecesse monótono, comum, falando sobre o que todo mundo não agüenta mais ler e contando o que todo mundo já sabe.
Porém, recentemente, parei para pensar melhor. Refleti sobre o caso, sobre a influência de Daniel Dantas, sobre o juiz De Sanctis e sobre a impunidade. Essa última foi determinante para que eu decidisse mudar de idéia e escrever sobre todo esse balaio que envolve a Polícia Federal, os grampos, a Abin, o delegado Protógenes e todo o Brasil.
Sendo um simples blogueiro, não estou aqui para falar sobre os meandros do caso. Muito menos para dizer quem foi o injustiçado, quem é o herói ou o que realmente ocorreu nos bastidores. Mas estou aqui, sim, para dizer quem é o vilão. E ele não é Daniel Dantas, porque não estou falando do vilão desse caso. Estou falando do vilão maior.
O vilão maior é a impunidade. Aquela que faz com que não existam condenações que sirvam de exemplo para os que pensam, infelizmente, em seguir o caminho dos crimes de colarinho branco. Aquela que ocorre por culpa dos que querem proteger seus interesses pessoais, esconder seus rabos presos e auxiliar os cúmplices.
Faz bem o juiz Fausto de Sanctis, que ressalto não se tratar também de um herói, em querer condenar Daniel Dantas. Por mais que sofra retaliações da cúpula da justiça brasileira, por mais que digam que ele quer “aparecer”. O juiz Fausto é um juiz como outro qualquer, e que por isso mesmo, tem os direitos que todos os outros têm. Um deles é a independência. Ele não pode, e não deve, ser coagido. Ele não pode, e não deve, sofrer qualquer tipo de pressão. Mas, infelizmente, não é isso que ocorre. E não ocorre justamente por Daniel Dantas ser quem ele é. Se fosse Daniel um ladrão de galinhas, estaria preso. Por ser alguém que sabe demais, que influi demais, que pode prejudicar políticos, está solto.
Mesmo que Daniel Dantas seja inocente, o que duvido que seja, embora eu não possa afirmar em contrário, tudo deve ser investigado com a maior lisura, até mesmo para que a sua defesa tente provar sua inocência. Então qual seria o interesse de alguns em atravancar as investigações? Por que até mesmo alguns políticos iriam bradar contra Fausto de Sanctis? E não me venham com o argumento de que o juiz da 6ª vara deveria seguir o entendimento de instâncias superiores, afinal, é claro para qualquer um com dois olhos que as instâncias superiores tem o entendimento que tem por estarem mais suscetíveis ao grande lobby que é feito em favor de Dantas. Dantas que é, ele mesmo, um lobista.
A impunidade que advém das “amizades” entre corruptos e os que têm o papel de punir é um dos tumores do país. A impunidade é um dos flagelos do Brasil. O caso de Daniel Dantas, seja ele culpado ou não, expõe as escarras causadas pelo câncer-impunidade. Os brasileiros assistem uma corrida de autoridades, de políticos e magistrados, enfim, das pessoas que deveriam representá-los com austeridade. A corrida tem em sua linha de chegada o que há de mais espúrio. A troca de silêncio por proteção. Fica claro para todos que há algo a esconder e quem quer que esse algo fique escondido. O algo a esconder se comprova com a pressa que muitos têm de tentar, por baixo do pano, auxiliar Dantas. Não é possível que ele tenha tantos bons amigos. Esses pseudo-amigos, quando agem com a pressa citada, comprovam que são os que querem que o algo fique escondido.
E ficamos todos nós assistindo ao espetáculo. Quem quer punir é afastado, quem busca a verdade é mal falado e tudo sobre um pretexto de insubordinação, de desrespeito à hierarqui, ficando cada vez mais nítido, para os que querem ver, que dominar as cúpulas dos três poderes de nosso país não é tão difícil assim. Seja Daniel Dantas, se comprovadas as acusações, ou seja qualquer outro que participe de esquemas de corrupção, todos devem ser condenados e punidos. Todos devem pagar pelo que fizeram. O ladrão de galinhas pagaria. É lendo os jornais e os sites de notícias que aprendemos a diferença entre um colarinho e uma galinha. A diferença é que a impunidade diminui quando ela não interessa a ninguém.
4 comments so far
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Bruno,
Sou também totalmente contra a impunidade reinante no Brasil, todas as impunidades, em relação a todas as “classes sociais”.
Mas me permita discordar de você em um ponto: até onde posso alcançar, De Sanctis e Protógenes revelaram-se aquém da missão institucional. Afinal, NÃO SE DEVE COMBATER ILEGALIDADES COM OUTRAS ILEGALIDADES. Confesso que nessa história toda venho me pautando pela opinião de Reinaldo Azevedo. Desde o estouro dessa tal operação policial, ele vem explorando essa questão em seu blog. Com um detalhe: ele, como eu, quer mais é que Daniel Dantas pague por suas malfeitorias. Mas desde que as leis não sejam tão-somente “documentos”.
Convido você e seus visitantes a ler, como exemplo, a seguinte análise de Reinaldo Azevedo:
http://www.blogger.com/email-post.g?blogID=30210460&postID=7377589375519283469
Abraço!
Varella,
Concordo plenamente com você. Acho que por mais que Dantas deva ser punido se for culpado, as leis devem ser cumpridas, sempre. Que estudante de direito seria eu se pensasse diferente? Acho que nós não discordamos não, até porque não elogiei Protógenes nem De Sanctis, aliás, eu digo em minha postagem que: “Faz bem o juiz Fausto de Sanctis, que ressalto não se tratar também de um herói, em querer condenar Daniel Dantas.”
Volte sempre Varella, meu leitor mais assíduo.
Bruno,
Se me permite uma sugestão, você como estudante de Direito: pesquise no Google ["direito achado na rua" unb "reinaldo azevedo"]. São alguns posts editados por este articulista em seu blog pessoal. Acho que pode aclarar mais ainda o que estamos discutindo.
Varella,
Obrigado por mais esse comentário.
Já ouvi falar muito desse tema e já pesquisei um pouco sobre, mas admito que nunca me aprofundei muito.
Vou seguir seu conselho nestes próximos dias. Quem sabe o que eu vir a ler não possa gerar até uma postagem aqui no blog sobre essa temática?
Volte sempre, será como sempre bem vindo e respondido.